sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A GLANDE














Escalar-te lábio a lábio,

percorrer-te: eis a cintura,

o lume breve entre as nádegas

e o ventre, o peito, o dorso,

descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca

dos teus olhos,

entregar-me poro a poro

ao furor da tua boca,

esquecer a mão errante

na festa ou na fresta

aberta à doce penetração

das águas duras,

respirar como quem tropeça

no escuro, gritar

às portas da alegria,

da solidão,


porque é terrível

subir assim às hastes da loucura,

do fogo descer à neve,

abandonar-me agora

nas ervas ao orvalho

a glande leve.

(Eugénio de Andrade, n 1923, Portugal
in "Eros de Passagem - Poesia Erótica Contemporânea"
Selecção e Prefácio do autor, Campo das Letras, 1997)

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